Essa Mulher       (poema de ana terra, música de joyce)
 
De manhã cedo, essa senhora se conforma 
Põe* a mesa, tira o pó, 
lava a roupa, seca os olhos 
Ah, como essa santa não se esquece 
De pedir pelas mulheres, pelos filhos, pelo pão 
Depois sorri meio sem graça e abraça 
Aquele homem, aquele mundo que a faz assim feliz. 

Pela tardinha*, essa menina se namora 
Se enfeita, se decora, 
sabe tudo, não faz mal 
Ah, como essa coisa é tão bonita 
Ser cantora, ser artista, 
isso tudo é muito bom 
E chora tanto de prazer e de agonia 
De algum dia, qualquer dia, entender de ser feliz. 

De madrugada, essa mulher faz tanto estrago 
Tira a roupa, faz a cama, 
vira a mesa, seca o bar 
Ah, como essa louca se esquece 
Quantos homens enlouquece 
nessa boca, nesse chão 
Depois parece que acha graça

e agradece ao destino aquilo tudo 
que a faz tão infeliz. 

Essa menina, essa mulher, essa senhora 
Em *quem esbarro a toda hora no espelho casual 
É feita de sombra e tanta luz 
De tanta lama e tanta cruz 
Que acha tudo natural.

 

 

* no original, Bota, De tardezinha, Em que