Beco

 

Era de noite, lembro-me bem

Como se fosse agora e aqui

O frio cortava como navalha

E a malta muda e sem se mexer

Como as pedras da calçada

Tinhamos vindo ainda há pouco

Da casa do João na avenida

Tudo bem alto, ninguém sonhava então

Que ia entrar num beco sem saída

 

Ele era meu amigo desde os dias de escola

Gostava de brincar comigo aos índios e aos cowboys

E eu sonhava poder vir a ser a sua companheira

Mas o meu herói quis outra heroína

O meu herói quis outra heroína

 

Estava deitado sobre o meu colo

Como Jesus ao colo de Maria

Fechou os olhos e eu tive medo

De o perder naquela noite fria

A morte veio, e sem dizer nada

Ele partiu com ela na montada

E eu fiquei rouca de gritar por dentro

Mas já de nada serviu o lamento

 

Ele era tão bonito e tocava viola

No grupo lá do bairro que ensaiava na garagem do Zé

A gente costumava ir juntos ver o sol nascer na praia

Mas o meu herói quis outra heroína

O meu herói quis outra heroína

 

(Letra e música de Luís Pedro Fonseca)

Lena d’Água, Terra Prometida, 1986