Trabalhar pra ganhar a vida

 

Em cada dia que nasce

Nasce de novo o castigo

A gente faz-se e desfaz-se

Pra ter comida e abrigo

 

Do dinheiro fica o cheiro

Do futuro um retrato

Trabalhar o dia inteiro

Com uma pedra no sapato

 

Nascemos já com a sina

De cantar o mesmo fado

De dançar este bolero

Na pista do ordenado

 

Grão a grão esta rotina

Vai enchendo o meu saco

Quem me livra desta sina

Quem me tira do buraco?

 

Trabalhar pra ganhar a vida

Porque é que a vida que se ganha

Tem de gastar-se a trabalhar

Pra ganhar a vida?

 

Vou comprar uma cautela

A ver se a sorte me ajuda

Antes do fim da novela

Talvez me saia a taluda

 

Entre os sonhos e o serviço

Fico presa deste modo

Como se fosse um feitiço

Que dura o mês quase todo

 

Trabalhar pra ganhar a vida

Porque é que a vida que se ganha

Tem de gastar-se a trabalhar

Pra ganhar a vida?

 

 

 

(Luís Pedro Fonseca)

álbum Lusitânia, Lena d’Água 1984