Aguaceiro

 

Passou aqui uma nuvem

Com o formato de um anjo

E cantou no meu alpendre

Aguaceiro de harpa e banjo

 

A seguir veio outra nuvem

Mais cinzenta e apressada

E deixou no meu alpendre

O cheiro da terra molhada

 

Depois vieram mais duas

Como flocos de algodão

Derramaram sobre as ruas

O resto de uma canção

 

Aguaceiro, aguaceiro

Trazes chuva de manhã

Nesse ritmo certo e brando

Podes cair todo o dia

Se parares de vez em quando

 

Depois veio a clave de sol

E pôs fim ao aguaceiro

Levantou-se o girassol

Sorrindo para o limoeiro

 

Depois foram pra nordeste

Cantar noutra freguesia

E tudo o que ficou foi este

Bocado de melodia

 

Cantou chuva já sol posto

Nas varas da minha umbrela

Veio salpicar meu rosto

E eu até cantei com ela

 

Aguaceiro, aguaceiro

Trazes chuva à meia-noite

Para cantar na vidraça

Podes cantar toda a noite

Que eu até te acho graça

 

Letra: Carlos Tê

Música: Rui Veloso

In Aguaceiro, Lena d’Água 1987