Lena
d’Água
Nome
completo: Helena Maria de Jesus Águas
Profissão:
cantora
Idade:
47 anos
Hobbies:
as plantas, os bichos...
DN-
Viajas muito?
LA- Já viajei muito, por todo
o mundo. De Macau ao Brasil, Canadá, Venezuela e México, Angola, Cabo Verde,
Bósnia, Alemanha, Suíça, Luxemburgo, França, Inglaterra, Holanda, cinco ilhas
dos Açores, Madeira e Porto Santo.
Hoje em dia saio pouco de Portugal, e só por causa
da música. Este país tem inesgotáveis tesouros escondidos. Para quê ir mais
longe?
DN-Qual
foi a tua primeira grande viagem?
LA- A Viena de Áustria, quando
tinha sete anos. O meu pai, depois de 13 anos a jogar como avançado centro no
Benfica, fez a época de 63/64 ao serviço do Áustria Viena. A família
acompanhou-o nesses nove meses. Fiz a segunda classe numa escola em Viena.
Entrei sem saber uma palavra de alemão, mas ao fim de poucas semanas já
entendia o essencial para poder comunicar com coleguinhas e professoras, e
gostei de lá andar. Guardo ainda os meus cadernos desse ano em Viena. Os meus
irmãos ainda eram pequenitos, ficavam em casa. Mas guardamos muitas recordações
desse tempo: os eléctricos vermelhos de três carruagens, os gatos de trela a
passearem as donas na relva à beira do Danúbio, as marcas da guerra presentes
ainda em muitos edifícios, os dias de neve e os pombos, mas sobretudo a Missa cantada pelos Pequenos
Cantores, que marcou a minha memória para sempre.
Nunca
mais voltei à Áustria, mas hei-de lá voltar um dia.
DN-
Viajas muito em Portugal? Quais os lugares de eleição?
LA- Viajei muito em Portugal, conheço o país real por causa da
música. Acompanhámos a transformação das estradas nacionais em IPs e
Auto-Estradas. Mas não me esqueci dos caminhos do trânsito local... os caminhos
de Martim Longo, por exemplo, os corta matos de Ponte de Sôr, as pedras de Tolosa, os vinhedos e os cedros de S.Torcato
ou as codornizes de Proença a Velha, passeando aos pares ao fim do dia, de mãos
atrás das costas...
Fazem-se muitos amigos durante os anos em que vamos
voltando aos sítios e vamos reafirmando amizades... Quando me decido a deixar a
casa e os gatos para uns breves dias de oxigénio e serra, longe da minha cidade
(eu nasci aqui em Lisboa e não tenho outra terra fora daqui), vou à terra dos
amigos. E é bom. Não há hotel ou turismo de habitação que se compare à casa dos
amigos. Nem país que me apeteça mais do que o meu.
DN-
Qual a cidade mais bonita que conheceste até hoje e porquê?
LA-
Lisboa. Gosto de a despir de 500 anos de vida e ficar a vê-la (eu suspensa no
ar como uma figura de Chagall, de preferência, a noiva), assim nua com os pés
dentro de água. Só colinas de muitos verdes e o rio azul profundo, deslizando
silencioso. E o céu já cor-de-rosa e laranja do fim do dia, com o sol a cair
muito devagar atrás de Cascais. Lisboa é a cidade mais bela que há no mundo,
não há nada a fazer.
DN-
Já alguma vez foste reconhecida na rua fora de Portugal? Se a resposta foi sim,
conta-nos a experiência...
Onde
encontraste as pessoas mais simpáticas e acolhedoras?
LA- Em todo o mundo encontrei
pessoas simpáticas e acolhedoras. Isto porque em cada cidade de cada país há
sempre pelo menos um português que me diz: “Bom dia! Então está por cá? Sou um
grande fã seu, sabia?”.
DN-
Fora de Portugal, onde gostarias de dar um concerto?
LA- No Caveau de la Huchette, em Paris. O
meu Tributo à Billie Holiday, com os meus queridos músicos, no Caveau de la
Huchette. Isso seria um espanto!
DN-
Quando viajas, preferes ir à deriva ou ir com tudo marcado?
LA- Em férias com a minha
filha fomos várias vezes à bolina. Foi muito emocionante.
Quando
saímos em concertos, é claro que não!
Trabalho é trabalho, e mesmo com todo o cuidado os percalços
acontecem...
DN- Preferes o campo, a praia ou as cidades?
Hotéis ou turismos rurais?
LA- Prefiro o campo que não
fique muito longe do mar. O campo de vastos horizontes e muito céu. E gosto
muito de acampar, desde miúda. O campismo dá-nos a liberdade de mudar de sítio
quando nos apetece.
DN-
Já marcaste alguma viagem através da Net? Se a resposta for sim: que tal a experiência?
Se for não: porquê?
LA- Antes de viajar consulto
a net para preparar roteiros e acertar pormenores, consultar os mapas,
relembrar a história do lugar e os sítios a ver, essas coisas. Quando decido
viajar agarro nas coisas essenciais e saio no dia seguinte, logo de manhã. As
minhas viagens são rápidas e sempre dentro de Portugal. Com uma única excepção,
que foi a minha ida a Ávila, no inverno de 91.
DN- Conta-nos
uma história especial que te tenha acontecido em viagem.
LA- Nesta viagem de três dias que fiz
até Ávila pernoitei na Pousada da Rainha Santa Isabel, em Estremoz, na ida e no
regresso. Na primeira noite fazia um temporal tremendo, com muito vento e muita
chuva. Vim espreitar a tempestade à janela do quarto, que dava para a parte
interior do castelo(para
quem não sabe, esta pousada foi construída no castelo). O vento era de tal maneira
forte que o pequeno lago que existe no centro do claustro era um verdadeiro mar
encapelado em miniatura, com os seus dois peixes de pedra como únicas testemunhas
além de mim.
Na noite do regresso a Portugal voltei a ficar na pousada,
num outro quarto que tem um quadro a óleo de Santo André (*). E eu, que chegava
de uma curta mas intensa viagem aos lugares de Santa Teresa, dormi na companhia
deste santo e senti que nunca se está sozinho quando a alma não é pequena...
(*) Santo André, o primeiro Apóstolo de Jesus ( séc. I ), apareceu a Teresa de Jesus (séc. XVI), em Ávila.
p/ DNDestinos, dezembro 2003